El Marronzito

Na subida do morro é diferente

29 Comentários

O Morro da Mineira

Morro, favela, lajes, metralhadoras e Caveirão.

Nem é preciso eu ser discípulo da Mãe Dináh para saber que você, caro leitor, lembrou do filme Tropa de Elite (com som do Tihuana comendo solto). Também me é claro que alguns leitores (as) devem ter imaginado o Wagner Moura de cueca dizendo “Vou te fatiar” ou “Pega o pau”, mas já aviso que este blog é um recinto virtual de respeito, sem esse tipo de baixarias e “pombagirices fanfarrônicas”.

Favela também nos remete ao samba na laje, o churrasco de filet-miau, coletividade e muita alegria. E, já que falo de Samba, gostaria de recordar um clássico do finado Bezerra da Silva que diz que “a favela é um problema social”. E quem sou eu, paulistano do interiorrrrrrrrrrrrr para discordar do cara que tinha a sogra bigoduda, que foi delatado pelo caguete do morro, faturou um cascalho de um sequestrador arrependido e ainda nos contou a história épica da Cocadaboa?

Sim, a favela é um problema social, mas ele é tão pequeno quando defrontado com a simplicidade e a beleza que se encontra em uma comunidade. E torna-se um problema ainda minúsculo se defrontando com o tamanho da falta de caráter dos políticos, aqueles que segundo o Bezerra, sobem o morro sem gravata e dizem que gostam da raça.

Uma das atividades mais bacanas do 1º Encontro dos Correspondentes Nacionais do Viva Favela foi realizar uma oficina de fotografia e vídeo em um morro. Porém, com a chamada pacificação das comunidades cariocas com as chamadas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora, que em Portugal são chamadas de Unidades da Polícia Panificadora do Manuel), mergulhar no universo de algumas comunidades cariocas virou uma espécie de turismo. No hostel que estava, conheci uma bela inglesa que estava toda feliz porque ia fazer o “Favela Tour” (favela pra inglês, ver, literalmente).

Arco e TV: dorgas, mano.

Eu também fiquei feliz em saber que iria conhecer uma comunidade. Mas entre eu e a moça da terra do Beckham que está viajando o mundo, há uma diferença absurda no olhar. Quem cresceu em bairros pobres e violentos e já passou alguns dias numa favela, provavelmente não terá a mesma visão que um gringo e alguns brasileiros criados jogando bolinha de gude no carpete da vovó e empinando pipa com ajuda do ventilador do papai. Favela não é o Simba Safári, mas muita gente vê dessa forma:

“Olha, um criança preto correndo pelado”.

“Olha o água suja fedido”.

“Olha o gata. Quanto confusão na fio”.

E por aí vai.

Crianças felizes nem sempre precisam da boneca da Rã na Montanha

Graças a ótima sacada do parceiro fotógrafo Walter Mesquita, editor de fotografia do Viva Favela, e que conhece os morros do Rio melhor que qualquer aspira aspirante a Capitão Nascimento, os correspondentes comunitários do site foram conhecer o Morro do Mineira. O morro tem esse nome porque seus primeiros habitantes foram mineiros. Na verdade, Chiquinho e Ricardo, líderes da comunidade, nos ensinaram que no Rio, há muito tempo, havia uma espécie de Robin Hood que tomava propriedades e as entregava para o povo (preciso achar o nome desse cara que usava capa, chapéu e apelidou sua arma de Lurdinha).

Aí, você amigo leitor me pergunta: “Mas por quê vocês não foram em morros mais famosos como a Rocinha, Mangueira ou o morro dos ventos uivantes?” Simples, porque embora “pacificados” e com soldados armados até os dentes (aliás, uma das polícias era linda demais),  alguns morros sofrem com a falta de projetos sociais, saúde e educação para a população

Sendo assim, com nossas máquinas fotográficas e filmadoras, e contando com o auxílio dos líderes comunitários, fomos registrar um pouco da vida da Mineira na esperança de que nosso trabalho traga coisas boas pras pessoas de lá.  As fotos, vídeos e nossas mensagens serão exibidas num telão para a comunidade se ver de forma diferente do que é retratada nos jornais “espreme que sai sangue”.

Em um dia inteiro na comunidade, muita coisa rolou (faltou pouco pra eu filar a bóia noturna lá). A princípio, subi o morro sozinho, mas uns manos ficaram um pouco ressabiados com minha magra presença. Até explicar que focinho de porco não é tomada, rolou um pequeno stress, mas tudo foi resolvido através do meu carioquês nativo. Na verdade, até entendo a visão das pessoas do morro, já que repórter na favela geralmente faz o tipo Nelson Rubens do Notícias Populares: aumenta muito e inventa muito mais.

Após mais de duas décadas de guerra civil, só com muita fé em Deus para seguir a luta

Bem, passado o pequeno entrevero, voltei para a equipe e, juntos com o pessoal da TV Brasil, combinamos dar a volta no morro, que faz parte do Complexo São Carlos. Para resumir minha empolgação em fotografar tudo que estava ao meu redor, o Walter disse que eu parecia um “pintinho no meio do lixo”. Vai ver foi por este motivo que me perdi do meu bando e passei quase uma hora perdido na favela.

Nesse meio tempo, eu parecia uma barata tonta correndo pelos corredores estreitos da favela. Se o Zé Pequeno me encontrasse, eu juraria de pé juntos que eu era o Buscapé. Até a Galinha eu pegaria. Num dado momento do meu role solitário, só havia um caminho a seguir. Diferentemente de Carlos Drummond de Andrade, que topou com uma pedra, o meu caminho foi impedido por um cachorro com cara de poucos amigos humanos.

A última cena que registrada da equipe do Viva Favela e da TV Brasil. Depois fui dar um rolé na ilha de Lost

Tive que desviar, andar, andar, fotografar gente comum, simples, brasileiros trabalhadores, andar e, mais uma vez, encontrar o cachorro bravo. Como já estava no topo do morro, onde por mais de 20 anos, infelizmente, balas voavam para tudo que é lado, levar uma mordidinha nem ia me fazer tão mal. Passei o cão, fotografei, fotografei, me perdi de novo, conversei com uns “leks”, tirei onda com os flamenguistas e, finalmente, voltei ao ponto de partida.

Ali, bem na entrada da Favela, encontrei um senhor de olhos bem azuis que quis saber que diabos um homem magrelo, de cabelo estranho e com uma câmera na mão fazia ali na vizinhança. Como eu estava cansado, aproveitei para sentar e conversar um pouco sobre a vida. Depois que expliquei o motivo de estarmos ali. Ele gostou e firmamos uma amizade. Pedi para tirar uma foto e, chato que sou, pedi um sorriso. Ele só sorriu quando disse que o Botafogo seria campeão (até o Garrincha riria disso). Mais um rosto, mais uma história e mais uma memória eternizada.

Botafogo campeão do Brasil? Aahahhahahahaa

Também fiz amizade com algumas crianças. Uma delas, a Letícia, me conquistou com sua sinceridade. Além do vídeo que sintetiza a parte engraçada, também houve um menino que ficou passando a mão no meu black com um carinho meio diferenciado. Sorte que um cara que conheci no morro me deu um toque dizendo que o menino era meio estranho: “Mermão, toma cuidado que esse moleque é boiola”. E eu pensando que o menino tinha achado o cabelo legal.  

Enfim, foi um dia único, que jamais vou esquecer. Ao contrário do que muita gente pensa, eu não sou (nem um pouco) rico como o Mr. Catra, mas a minha profissão de Peter Parker Preto me dá emoções que não tem preço algum. Conheci muita gente bacana e pretendo voltar ao morro novamente (não me perderei mais, acho). A lição que fica é que, no fim, somos todos iguais: brasileiros, humildes, alegres e com sangue misturado demais para se acharmos melhores uns que os outros. Chega de mimimi e vamos a las fuetas:

Gerações diferentes, amor semelhante pela comunidade

Olha o tradicional gato. Os caras que mexem nesses fios são verdadeiros gênios

Diferentemente do centro de algumas metrópoles, no morro dá pra andar de bike sem ter medo de ser atropelado por um busão

Olha o seu guarda da UPP. Esperamos que a paz continue após as Olimpíadas e Copa, tia Dilma

Olha o dog aí. Mas esse é amigo e tinha mais o que fazer do que me morder

Castolo, Janco Tiano e Allejo

Periferia e morro tem que ter o espaço de liberdade para os homens terem um tempo livre das donas das pensões

Uma das poucas opções de lazer da molecada é uma quadra de futebol. E rios de dinheiro gastos na Copa do Mundo

Estudantes adentram o morro. Quem pensou em Chiquititas, errou feio

O flamenguista que me ajudou a descer o morro. Sangue bão

São João ainda tá firme e forte no morro

Lembrei da minha irmã Cris

Para quem pensa que só existe um tipo de gato no morro, se enganou

Para subir o morro existe dois tipos de transporte: Perua e o Moto-táxi. Acredite, são dois reaixxs bem investidos depois de um dia de trabalho duro

E mais futebol

E uma vista maravilhosa para fechar um dia tão enriquecedor

E não podia faltar um goró para fechar a fatura

As mocinhas que ao me verem com a câmera nas mãos, já vieram cheias de pose. A de trás é a Letícia, que me chamou de...vejam o vídeo

Para sair por cima, perguntei pra Letícia se ela gostava do Thiaguinho do Exaltasamba. Após sua afirmativa, provoquei dizendo que ele também usa brinco. Ela, sem pestanejar, me respondeu “Ele também é bicha”.

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Autor: ronielfelipe

Jornalista e Fotógrafo

29 pensamentos sobre “Na subida do morro é diferente

  1. To adoooorando!! =D Lind a foto do “trio de boleiros”!! Linda…
    bjo bjos

  2. Parabéns!! Adorei o texto e a forma bem humorada com a qual retratou esse assunto tão sério.
    “Favela não é o Simba Safári” e “embora “pacificados” e com soldados armados até os dentes, alguns morros sofrem com a falta de projetos sociais, saúde e educação para a população”. Você disse tudo, não é necessário acrescentar mais nada!
    Excelente! Será sempre bem vindo no Rio, volte sempre! =)

  3. hahahahaa falaê Thiaguinho !

  4. Perfeita sua reflexão… a maneira como nos instiga pensar. Nos trazendo o REAL.. nos fazendo ver que TODOS somos realmente iguais e farinha do mesmo saco.. e que a única diferença.. esta no “respeito” como vemos os outros e daqueles que poderiam mudar e melhorar tanta coisa. Roni, muito bom mesmo.. nossa tem talento, dá pra fazer um livro…nos fez ir lá com vc. e olhamos pelos teus olhos. A hipocrisia humana é tanta..que nos cega..o egoismo é tanto que nos fazem ver somente aquilo que nos convém até nossos “últimos” dias (isso é real).. NOSSO umbigo.. nosso quintal. e esquecemos.. a capacidade humana. onde TODOS juntos poderiam fazer este mundo, um mundo realmente maravilhoso e mais igual. pelo menos mais justo. obrigada. adorei ler e ver! e também notar a riqueza da sua memória. rs sucesso!

  5. CARACA, MERMÃO! LINDAX FOTUX, LINDAX MERMU! Também adorei o texto, estava ansiosa por este post.

  6. Mto bom…
    Mas aquele senhor teria rido tb se dissessem q o corinthians seria campeão da libertadores…kkkkkkkkkkk
    certeza!!!
    kkkkkkkkkkkkkkk

  7. Fantastico Roni!!!! Adivinha o que mais gostei?!?!?!? do cachorro e do gato!!!!!!!!!!!!!!! ahhhhh o Peter Parker Preto foi demais também!!!!!!!!!!! Você é OTIMO!!! sempre foi e continuara sendo! Um grande abraço!!!!!!!!!!!!!!!

  8. caraio mano!
    só fotão!
    é um sonho de mtos fotografos, esse que vc realizou de maneira sublime!
    a primeira foto, a da porta com o recado, a da bola….nossa, sensacionais!

  9. Ser Peter Parker Preto tudo bem, só lembra que, na hora do aperto, não dá pra virar o Black Spider Man, haha. Eu também teria vontade de ir sozinho ou mesmo de me “perder” por lá pra fotografar, mas pelo jeito não é muito saudávle né? A foto das meninas tá ótima (e o vídeo delas mais ainda, hehe). Aliás estão todas muito boas. Abraço!

  10. Fantásticas as fotos. De um olhar que eu nunca tive =] Parabéns

  11. Fantástico como o outro texto. Parabéns

  12. Gente… que menininha mais fofa e sapeca! hauahuahauhauhau
    chorei com o vídeo!

  13. Adorei! Fotos excepcionais e texto bem bacana como sempre. A garota do vídeo … uma graça =)

  14. Já comentei no MSN hoje cedo e ontem à noite para você. Chamei-te de “Bicha” precisa te zuar.

    Mas o mais importante é o quanto eu gostei (e aprendi) com seu post!
    Parabéns!!!

    Um Beijo =)

  15. È simplesmente lindas, todas as imagens q vc capturou em sua câmera mágica. Suas fotografias fazem com q nos simples mortais, sentir a realidade em cores como se estivessemos presente naquele momento do clique.Já te parabenizei antes e volto a fazer reverência pelo seu trabalho lindo. xero!

  16. Muito Bom!! Adorei,a gente aprende com seus posts muita coisa a cada dia!! continue assim abrilhantando nossos dias!!!

  17. Putz dpois q o Thiaguinho tb é bixa é foda não dar risada!!!
    Ta linda as fotos, pra variar um poucooo…. Muito lindo tudooo!!!
    Beijos

  18. Super bom, curti muito…. Só não gostei de uma coisa da sua vinda aqui ao Rio, não ter te visto 😦

  19. Não sei como você ainda continua pobre… Hahahahaha! Brincadeira Roni! Como sempre nota 11! Abraço!

  20. Mano, que post genial, o modo como você escreve é muito cativante!
    Parabéns!

  21. belo post, manolo! o que mais gosto nos seus textos é a capacidade de expor uma visão diferenciada do lugar comum. parabéns!

  22. Só pra me inscrever no feed =)

  23. amei!!!!!!!!!!!! quero saber mais!!!!
    Roni ainda te vejo no jornal nacional!!! Dali negrito!! bjssssss

  24. Mais um texto incrível e com fotos muito boas. Você tem muito talento meu!!!

  25. Mais uma vez surpreendendo heinn… Belas fotos, descrição do trapalho mega ultra bacana, histórias q só quem vive sabe nehhh. Eu admiro muito seu trabalho preto… parabéns sempre. Bjoooo!!!

  26. Boooooa Letícia kkkkkkkk
    criança não mente o El Marronzito pode serrr mas jáa o Sr. Ronin …. ^^

  27. vc é o cara!!!

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